Pendurada num poleiro, a ave inquieta recebe em suas garras o pedaço de papel. Lê. Imediatamente o amassa e engole. "Eu nunca menti pra você" diz Brenda, a cacatua. E continua, "Jamais deixarei de te amar, cuide de você". De repente, o vídeo acaba. A tv fica escura por cinco segundos, reacende e as juras se repetem e repetem e repetem.
Nunca é fácil admitir que fracassamos. Dar fim, nunca acaba em poesia. Pelo menos não uma que preste ou se dê ao respeito, na minha opinião. Eu não diria que Sophie Calle conseguiu transformar a dor em arte. Ao menos tentou.
As palavras transformam-se ora numa arma pontiaguda ora apenas integrantes de uma folha de papel ridícula, passam em branco. Desta forma, a carta esgota-se. Mas a via é uma só, de recomeço. Eu recomeço no final da carta escrita por Grégoire, ex-namorado de Sophie, que em parte tem razão. O melhor que temos a fazer é cuidar de nós mesmos. Faltou dizer que não devemos esquecer de cuidarmos também uns dos outros.

que não possa ficar pior.